Desde a década de 1970, o capitalismo global passou por profundas transformações que reconfiguraram a divisão internacional do trabalho e alteraram as bases produtivas de diversos países. No caso do Brasil, essas mudanças tiveram impacto direto sobre a estrutura industrial construída ao longo do processo de substituição de importações no século XX.A abertura econômica, a financeirização da economia e a intensificação da concorrência global provocaram um processo contínuo de desindustrialização relativa. Setores industriais estratégicos perderam densidade tecnológica e capacidade produtiva, enquanto cadeias industriais foram fragmentadas e transferidas para regiões com menores custos de produção. Como resultado, a economia brasileira tornou-se mais dependente da exportação de commodities e menos capaz de sustentar um parque industrial diversificado.Esse processo teve consequências profundas para o mundo do trabalho. A classe operária industrial, historicamente um dos pilares da organização sindical e da mobilização política no país, sofreu uma significativa retração. Em seu lugar, expandiram-se formas de trabalho marcadas pela precarização, informalidade e fragmentação das relações laborais.O avanço de modelos produtivos flexíveis e plataformas digitais intensificou a dispersão da força de trabalho, dificultando a organização coletiva. Ao mesmo tempo, a hegemonia do capital financeiro passou a subordinar a dinâmica produtiva às exigências de rentabilidade de curto prazo, limitando investimentos estruturais na indústria.Diante desse cenário, a reconstrução da classe trabalhadora organizada — em especial da classe operária ligada à produção industrial — torna-se um elemento estratégico para qualquer projeto de desenvolvimento nacional. Isso não significa um retorno nostálgico ao passado industrial, mas sim a construção de uma nova base produtiva capaz de incorporar inovação tecnológica, soberania produtiva e geração de empregos de qualidade.Nesse contexto, o Estado desempenha um papel fundamental. Experiências históricas demonstram que processos de industrialização bem-sucedidos dificilmente ocorreram sem forte coordenação estatal. Um Estado indutor do desenvolvimento pode orientar investimentos, fortalecer empresas nacionais, promover políticas industriais e articular sistemas de ciência, tecnologia e inovação.A reconstrução de um projeto nacional de desenvolvimento passa, portanto, por três eixos centrais:
Reindustrialização com base tecnológica, capaz de inserir o país em cadeias produtivas de maior valor agregado;
Fortalecimento da organização do trabalho, com novas formas de representação capazes de dialogar com as transformações do mundo produtivo;
Políticas públicas de planejamento econômico, que reduzam a dependência externa e ampliem a capacidade produtiva interna.
Sem a reorganização social e política da classe trabalhadora, especialmente dos trabalhadores ligados à produção, qualquer estratégia de desenvolvimento corre o risco de permanecer subordinada às dinâmicas do capital global.O retorno da classe operária como sujeito coletivo não é apenas uma questão de justiça social. Trata-se de uma condição histórica para reconstruir um projeto de desenvolvimento inclusivo, soberano e capaz de enfrentar as assimetrias estruturais da economia brasileira.