1. O que é a crise na Síria?
A guerra na Síria começou em 2011 como parte das chamadas “primaveras árabes”, evoluindo para um conflito complexo envolvendo:- O governo de Bashar al-Assad (com apoio da Rússia e Irã);
- Forças rebeldes diversas (incluindo grupos islâmicos);
- ISIS (Estado Islâmico);
- A população curda buscando autonomia no norte;
- Intervenções estrangeiras, incluindo as dos Estados Unidos, Turquia e outros países.
2. Quem são os curdos?
Os curdos são:- Um grupo étnico com cerca de 30–40 milhões de pessoas espalhados por quatro países: Turquia, Síria, Iraque e Irã;
- Uma das maiores nações sem um Estado reconhecido internacionalmente;
- Organizados em milícias e administrações próprias em regiões de norte e nordeste da Síria, especialmente sob a liderança das Forças Democráticas da Síria (SDF) e das Unidades de Proteção do Povo (YPG).
3. Aliança entre curdos e Estados Unidos
Durante a luta contra o Estado Islâmico (ISIS), os curdos se tornaram aliados cruciais dos EUA:- As SDF/YPG receberam apoio militar, treinamento e inteligência dos americanos;
- Eles lideraram batalhas decisivas para derrotar o ISIS e perderam milhares de combatentes nessa luta;
- Por anos, a presença militar dos EUA no nordeste sírio funcionou como um deterrente contra ofensivas da Turquia e do governo sírio.
4. Por que os curdos se sentem traídos pelos EUA?
Vários fatores contribuíram para esse sentimento de traição:a) Mudança nas prioridades dos EUA
Com a queda do regime de Assad em 2024 e mudanças estratégicas, os EUA passaram a ver o novo governo sírio sob Ahmed al-Sharaa como parceiro mais útil para unificar o país— diminuindo o apoio direto às forças curdas.b) O fim do papel das SDF
Um enviado dos EUA declarou que o papel das SDF como principal aliada contra o terrorismo havia “expirado”, sinalizando que Washington não mais sustentaria militarmente as forças curdas.c) Acordos de integração desfavoráveis
Os curdos, sob pressão militar e isolados, aceitaram um acordo de cessar-fogo com Damasco querequer que suas forças sejam integradas ao Exército sírio e percam o controle autônomo de vastos territórios — algo que muitos veem como um resultado direto da retirada de apoio americano.d) História repetida de abandono
Este não é um caso isolado: muitos curdos lembram que os EUA já retiraram apoio em momentos críticos no passado (por exemplo, retirada em 2019 que abriu espaço para ofensiva turca) e sempre priorizam interesses geopolíticos ao invés das aspirações curdas.A sensação geral
Muitos curdos disseram que, apesar de terem combatido e dado milhares de vidas na luta contra o ISIS, foram deixados “sozinhos” quando mais precisavam de apoio. Isso alimenta o sentimento de que a aliança com os EUA foi tática e transitória, não baseada em confiança permanente.5. O que isso significa para o futuro?
- A administração curda agora depende de negociações com o governo sírio e outras potências regionais (Turquia, Irã, Rússia), muitas vezes com pouca margem de autonomia real.
- O papel e a segurança dos curdos continuam em risco devido a pressões militares, políticas e demográficas regionais.
Resumo
Os curdos foram aliados-chave dos EUA contra o Estado Islâmico.Com o fim daquela fase do conflito e mudanças estratégicas, Washington mudou de foco e diminuiu o apoio direto.
Isso deixou os curdos mais vulneráveis, alimentando um forte sentimento de abandono e traição.
Impacto na Turquia
A Turquia vê qualquer avanço curdo como ameaça existencial.- Ancara considera o YPG/SDF uma extensão do PKK, organização curda que o Estado turco classifica como terrorista.
- Quando os EUA recuam da Síria, a Turquia ganha sinal verde implícito para:
- Intensificar bombardeios no norte da Síria
- Pressionar politicamente e militarmente áreas curdas
- Para os curdos, fica claro que:
Impacto no Iraque
No Iraque, a situação é mais ambígua, mas igualmente frágil.- O Curdistão iraquiano tem autonomia formal desde os anos 1990.
- Porém:
- Depende económicamente de Bagdá
- Sofre divisões internas (KDP x PUK)
- O abandono dos curdos sírios:
- Enfraquece a posição curda como um todo
- Reduz a capacidade de barganha frente ao governo central
- Além disso:
- A Turquia realiza operações militares frequentes no norte do Iraque, muitas vezes sem reação dos EUA.
. O padrão histórico (o ponto central)O sentimento curdo não nasce agora. Ele se baseia em um padrão repetido:
- EUA usam os curdos quando:
- Precisam de força terrestre
- Querem derrotar um inimigo comum (ISIS, Saddam, Assad)
- Abandonam quando:
- O custo diplomático sobe
- Um aliado estatal “mais importante” reclama
“Os curdos não têm amigos além das montanhas.”A crise atual na Síria só confirma essa memória coletiva.
Em resumo direto
- Síria: perda de autonomia e integração forçada a Damasco
- Turquia: aumento da repressão e ofensivas militares
- Iraque: enfraquecimento político e mais pressão externa
- EUA: vistos como parceiro tático, não confiável no longo prazo,,,




