A chamada “crise democrática” tem sido frequentemente apresentada como um problema institucional, técnico ou conjuntural.
No entanto, esse discurso funciona, na prática, como um mecanismo de desmobilização social.
Ao tratar a instabilidade política como um fenômeno abstrato, esconde-se o processo real em curso: a destruição gradual dos valores democráticos que historicamente limitaram a expansão irrestrita do mercado.
Em vez de fortalecer a participação popular, ampliar direitos e aprofundar o debate público, sucessivas reformas vêm reduzindo o papel do Estado, enfraquecendo políticas sociais e ampliando o poder de grandes grupos econômicos.
O resultado é um sistema político cada vez mais distante da população e mais próximo dos interesses do capital.
Nesse contexto, a noção de “crise democrática” deixa de ser um alerta e passa a ser uma cortina de fumaça. Ao deslocar a atenção para disputas institucionais superficiais, evita-se discutir o núcleo do problema: a subordinação crescente da política às exigências do mercado.
Resgatar a democracia, portanto, não significa apenas preservar eleições ou instituições formais. Significa recuperar o sentido social da política, recolocar a economia a serviço da maioria e reconstruir mecanismos reais de participação popular.
Sem isso, continuaremos assistindo ao enfraquecimento dos direitos, à concentração de riqueza e à normalização de um modelo que esvazia a democracia em nome do lucro.
Mais acadêmico.
A “crise democrática” como discurso de legitimação do mercado
O conceito de “crise democrática” tem sido amplamente mobilizado no debate público contemporâneo para explicar os impasses políticos, a instabilidade institucional e a crescente desconfiança da população em relação às instituições representativas.
No entanto, longe de constituir apenas uma categoria analítica neutra, esse discurso opera, frequentemente, como um mecanismo ideológico de despolitização e desmobilização social.
Ao enquadrar a atual conjuntura como uma crise abstrata, técnica ou conjuntural, desloca-se o foco das transformações estruturais em curso.
O que se observa, na prática, é a progressiva erosão dos valores democráticos que historicamente funcionaram como limites à expansão irrestrita do mercado.
Direitos sociais, mecanismos de participação popular e políticas redistributivas vêm sendo sistematicamente fragilizados em nome da austeridade fiscal, da eficiência econômica e da competitividade.Nesse processo, a política passa a ser subordinada às exigências do capital financeiro e dos grandes conglomerados econômicos.
As decisões estratégicas deixam de ser orientadas pelo interesse público e passam a responder prioritariamente às dinâmicas do mercado global.
Como consequência, amplia-se a distância entre representantes e representados, aprofundando a crise de legitimidade das instituições democráticas
.A retórica da “crise democrática”, nesse sentido, tende a ocultar o caráter estrutural dessa reconfiguração.
Ao enfatizar disputas institucionais, polarizações eleitorais ou falhas administrativas, evita-se problematizar o núcleo do fenômeno: a transformação da democracia em um arranjo formal esvaziado de conteúdo social.
Desse modo, a defesa da democracia não pode se restringir à preservação de procedimentos eleitorais ou à estabilidade institucional.
Ela exige a reconstrução de mecanismos efetivos de participação, a ampliação dos direitos sociais e a revalorização do papel do Estado como mediador dos conflitos econômicos e sociais.
Sem esse enfrentamento estrutural, a chamada “crise democrática” tende a se perpetuar como discurso legitimador de um modelo que, ao privilegiar a lógica do mercado, contribui para o enfraquecimento contínuo da soberania popular e da justiça social.