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03 Nov

A fome Mata  por dia entre 30 crianças por desnutrição
“Uma criança que morre de fome é uma criança assassinada”, enfatiza Jean Ziegler. De acordo com o primeiro Relator da ONU para o direito à alimentação, os fatores desta “conspiração contra os pobres” são: a especulação sobre os preços dos alimentos básicos, o peso da dívida e a desleal concorrência agrícola.

Jean Ziegler denuncia tanto a fome estrutural quanto a temporária, rejeitando qualquer fatalismo.

N. T.: A insegurança alimentar aguda atingiu seu nível mais alto em cinco anos, de acordo com o Relatório Mundial sobre Crises Alimentares. Como você reage a esta observação?


J. Z.: Não há nenhuma surpresa em tudo isso, seja para a situação atual ou para o futuro próximo. A chacina diária da fome continua sendo o escândalo absoluto de nosso tempo. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), uma criança menor de 10 anos morre de fome ou de suas consequências imediatas a cada cinco segundos. A organização da ONU faz um péssimo balanço: 17.000 crianças desta idade morrem de fome todos os dias, quase um bilhão de seres humanos estão permanentemente gravemente desnutridos. O mesmo relatório que divulga anualmente esses números terríveis afirma que a agricultura mundial, no estágio atual de seu desenvolvimento, poderia alimentar normalmente 12 mil seres humanos, ou seja, fornecer a cada um deles as 2.200 calorias diárias essenciais. Isso com a condição de que a distribuição dos alimentos obedeça critérios legais de justiça e equidade, que não dependa apenas do poder de compra. Uma criança faminta é uma criança assassinada. Dito isto, a fome aumentou novamente ao longo dos últimos três anos e, com a pandemia, o curso das coisas é absolutamente catastrófico. A covid-19 lançou mais 136 milhões de pessoas ao abismo da desnutrição grave e permanente. 

N. T.: Quais são os fatores que perpetuam esta situação e vão contra a corrente dos mecanismos de combate à fome no mundo?

J. Z.: Não há fatalidade. As causas são facilmente identificáveis, assim como as medidas imediatas a serem tomadas. A começar pela especulação do mercado de ações sobre alimentos básicos (milho, arroz e trigo), que cobrem 75% do consumo mundial. As operações especulativas elevam continuamente os preços e trazem lucros astronômicos às multinacionais e aos grandes bancos. Este fenômeno constitui uma verdadeira conspiração contra a difícil situação dos pobres em todo o mundo. Em todas as favelas do mundo, as mães não podem mais alimentar seus filhos diariamente, porque suas economias estão prejudicadas.

É de extrema urgência proibir esses jogos financeiros em torno de produtos agrícolas essenciais para a sobrevivência dos mais desfavorecidos.

Segundo fator determinante: o peso da dívida nos países pobres. Estão asfixiados, os investimentos na agricultura se fazem impossíveis para esses países. Devido à falta de equipamento, irrigação suficiente, fertilizantes, a produção por hectare no Sahel, por exemplo, é 10 vezes menor do que na Bretanha ou em qualquer outro lugar. O que o Mali ganha com a exportação de um pouco de algodão, ou o Senegal com o amendoim, vai imediatamente para o serviço da dívida dos grandes bancos, principalmente os ocidentais. É um ciclo vicioso infernal. Devemos suspender absolutamente o bloqueio da dívida, ousar traçar um limite. É perfeitamente possível em um futuro imediato.

Terceira causa, igualmente decisiva: a concorrência agrícola desleal. Os excedentes dos países da União Europeia são despejados nos mercados africanos a preços totalmente imbatíveis. Em outras palavras, eles arruínam completamente a frágil produção agrícola indígena. Os produtores locais são esmagados. É preciso interromper essa prática comercial devastadora que está minando todos os esforços dessas pessoas. E como não falar na venda de terrenos? No ano passado, 41 milhões de hectares de terras agrícolas africanas passaram a ser ocupados por empresas de participações (holdings). Estas então expulsam os camponeses de suas aldeias e produzem verduras. Ou como as rosas do Quênia, por exemplo, que são exportadas para a Europa, América, Arábia Saudita, etc. Posso continuar a enumerar esses fatores, peculiares ao sistema capitalista, que provocam e mantêm a fome que tantos seres humanos padecem. O que falta fundamentalmente é a vontade política para acabar com as trágicas consequências de tal sistema.

N. T: Você acha que a pandemia, que agrava a crise alimentar, vai aumentar a conscientização em nível internacional?

J. Z.: No momento, não há sinais de evolução nessa direção. A dívida externa dos países pobres, por exemplo, permanece intacta. Os bancos credores e o FMI não abrem mão de um único centavo. A covid-19, no entanto, agravou a crise alimentar, derrubou a produção completamente, praticamente interrompeu o transporte e reduziu a força de trabalho. Acabar com a fome é a segunda das 17 demandas da agenda de desenvolvimento sustentável da ONU para 2030. Antonio Guterres está certo ao se referir a esse requisito, mas os desenvolvimentos atuais estão indo na direção oposta e não tenho ideia de como a humanidade poderia alcançar a segurança alimentar nos oito ou nove anos que faltam. As Nações Unidas distinguem dois tipos de fome: fome estrutural, ligada ao desenvolvimento insuficiente das forças produtivas de um país, e a fome conjuntural, quando uma economia entra completamente em colapso, devido a uma guerra, uma seca, uma epidemia, gerando a fome. A fome qualificada assim está aumentando atualmente, à medida que se multiplicam os conflitos e as guerras. Essas situações dramáticas – fome estrutural e fome cíclica – são cumulativas. Hoje estamos neste cenário duplo. Esta é a primeira vez em muito tempo.

Trabalhos de Jean Ziegler sobre o tema: Destruição em massa, geopolítica da fome. Edições Seuil, 2011. O capitalismo explicado à minha neta (esperando que ela testemunhe seu fim). Edições Seuil, 2018. 

Jean Ziegler foi Relator Especial da ONU para o Direito à Alimentação entre 2001 e 2008 e membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Membro do Parlamento Federal Suíço de 1981 a 1999. Em 1964 conheceu Che Guevara, a quem serviu como motorista durante uma visita do primeiro a Genebra para a Conferência do Açúcar.

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