
DAILYINTIMES, Top 15 pontos essenciais sobre A Política Global Frente ao Transnacionalismo
1, Entender o que é transnacionalismo e por que ele mudou o tabuleiro da política global
Transnacionalismo é a teia de relações, fluxos e identidades que atravessam fronteiras nacionais de forma contínua, por meio de migrações, cadeias de produção, finanças, redes digitais, ciência, cultura, ativismo e também crime organizado. Ele não é apenas um fenômeno externo aos Estados, ele acontece dentro das sociedades e das instituições, influenciando como governos tomam decisões e como populações se mobilizam. Ao contrário de processos tradicionais de diplomacia, que operam entre capitais e chancelarias, o transnacionalismo ocorre em múltiplos níveis, cidades, empresas, universidades, diásporas e plataformas online.
Na prática, transnacionalismo significa que a política global não pode mais ser interpretada apenas por rivalidades entre países. Hoje, uma crise climática, um ataque cibernético, uma campanha de desinformação, uma ruptura logística ou uma pandemia, podem surgir em uma região e se espalhar rapidamente, criando pressões simultâneas sobre muitos governos. Isso obriga Estados a cooperarem, competirem e regularem em tempo real, muitas vezes com instrumentos incompletos e com legitimidade contestada.
2, Reavaliar a soberania, de escudo jurídico a prática de governança em rede
A soberania continua central, mas funciona menos como uma barreira absoluta e mais como uma capacidade de coordenar recursos, regular mercados e prestar serviços dentro de um ecossistema global. Estados ainda controlam fronteiras, leis e força coercitiva, porém enfrentam limitações quando problemas são transfronteiriços. A questão passa a ser, quais competências podem ser exercidas de forma puramente nacional e quais exigem mecanismos compartilhados.
Esse reequilíbrio aparece em temas como tributação de multinacionais, regulação de plataformas digitais, rastreio de cadeias produtivas e controle de riscos financeiros. A soberania, nesse contexto, não desaparece, ela muda de formato, e passa a depender de acordos, padrões técnicos, comitês e interoperabilidade jurídica. Em vez de perder soberania, governos podem ganhar capacidade, se participarem de arranjos que ampliem informação, fiscalização e poder de barganha.
3, Mapear os novos atores, corporações, cidades, diásporas, redes e plataformas
A política global contemporânea é cada vez mais moldada por atores que não são Estados. Multinacionais definem padrões de produção e trabalho em diferentes países. Plataformas digitais controlam infraestrutura de comunicação e publicidade, e impactam eleições e volumes de informação. Cidades e governos locais realizam diplomacia climática, atraem investimentos e criam consórcios de inovação. Diásporas levantam recursos, influenciam opinião pública e mediam relações econômicas e culturais. ONGs monitoram violações de direitos, pressionam por sanções e desenham políticas públicas. Redes criminosas exploram brechas regulatórias ao longo de fronteiras e zonas cinzentas financeiras.
Para governos, ignorar esses atores significa perder capacidade de antecipação. A resposta pragmática é construir instrumentos de engajamento e regulação, definindo incentivos, responsabilidades, transparência e consequências. Isso envolve também reconhecer assimetrias, algumas corporações têm orçamentos comparáveis ao de países médios, e podem deslocar cadeias produtivas rapidamente em reação a regulamentos, impostos ou instabilidade política.
4, Lidar com governança global fragmentada e regimes que se sobrepõem
Em muitas áreas, não existe um governo mundial, e sim uma colcha de retalhos de tratados, organizações, padrões técnicos, tribunais, regulações nacionais com efeitos extraterritoriais e iniciativas privadas. Essa fragmentação cria oportunidades, mas também conflitos entre regras. Um país pode ter obrigações comerciais que entram em choque com metas ambientais, ou pode aceitar investimento estrangeiro que contraria exigências de segurança nacional. A governança global, portanto, se torna um trabalho de compatibilização constante.
Para navegar essa realidade, Estados precisam de capacidade técnica, diplomacia especializada e coerência interna. Um dos maiores desafios é evitar que políticas domésticas desconectadas, como tributação, indústria, migração e defesa, gerem sinais contraditórios e reduzam credibilidade externa. Ao mesmo tempo, a fragmentação permite que coalizões de interessados avancem em agendas específicas, criando “clubes” de cooperação em vez de esperar consenso universal.
5, Enfrentar a geoeconomia, quando comércio e investimentos viram instrumentos de poder
Transnacionalismo intensifica interdependência econômica, mas também torna cadeias produtivas alvos de pressão geopolítica. Sanções, controles de exportação, tarifas e barreiras técnicas são usados para influenciar comportamento de outros atores. Ao mesmo tempo, países buscam reduzir dependências críticas, em energia, alimentos, semicondutores, minerais estratégicos, equipamentos médicos e serviços de nuvem. A economia deixa de ser apenas uma arena de eficiência e passa a ser uma arena de segurança e estratégia.
O dilema central é equilibrar resiliência com prosperidade. Diversificar fornecedores e construir estoques pode aumentar custos. Restringir tecnologia pode reduzir inovação. Atrair investimento estrangeiro pode acelerar crescimento, mas também criar riscos. A política global frente ao transnacionalismo exige ferramentas sofisticadas de avaliação de risco, e a capacidade de diferenciar setores sensíveis de setores onde a abertura ainda é benéfica.
6, Tratar migração e mobilidade como política estrutural, não como emergência permanente
Migrações são um dos motores do transnacionalismo, criando laços familiares, econômicos e culturais entre países. Ao mesmo tempo, podem gerar tensões políticas internas quando há percepção de competição por empregos, pressão sobre serviços públicos ou perda de identidade. Em contextos de guerra, colapso econômico e eventos climáticos extremos, a migração se intensifica e desafia sistemas de asilo e integração.
Uma política global realista precisa combinar proteção humanitária, gestão de fronteiras e cooperação com países de origem e trânsito. Também precisa reconhecer que migração pode ser um ativo, ampliando força de trabalho, inovação e vínculos comerciais, desde que existam estratégias de integração, reconhecimento de competências, ensino de língua e combate à exploração laboral.
7, Encarar a segurança transnacional, crime organizado, terrorismo e mercados ilícitos
Redes criminosas aproveitam globalização financeira, logística e digital para mover dinheiro, armas, pessoas e drogas. Elas se adaptam rapidamente, exploram paraísos fiscais, empresas de fachada e sistemas de pagamento. Terrorismo e extremismo também se disseminam por redes online, com recrutamento e financiamento transfronteiriços. Muitas vezes, esses fenômenos se conectam a instabilidade política, corrupção e economias informais.
A resposta baseada apenas em repressão doméstica tende a falhar, porque os nós principais podem estar fora do território e a cadeia de valor do crime atravessa várias jurisdições. É necessário fortalecer cooperação policial e judicial, harmonizar regras de lavagem de dinheiro, compartilhar inteligência e elevar padrões de transparência corporativa. Ao mesmo tempo, políticas de segurança precisam respeitar direitos, para não alimentar radicalização ou criar abuso de poder.
8, Reconhecer a centralidade do clima e da transição energética como agenda transnacional
A crise climática é o exemplo mais evidente de problema que atravessa fronteiras e torna a política global inevitável. Emissões em um lugar afetam o mundo inteiro, e eventos extremos desorganizam produção agrícola, infraestrutura e fluxos de pessoas. A transição energética, por sua vez, reorganiza cadeias de valor, com demanda por minerais críticos, novas rotas de comércio e disputa por liderança tecnológica.
Transnacionalismo climático se manifesta em compromissos de empresas, coalizões de cidades, financiamento verde, litígios climáticos e pressão de consumidores. A política global precisa alinhar metas com instrumentos concretos, precificação de carbono, padrões de desmatamento, financiamento para adaptação e tecnologias de baixo carbono. Também precisa evitar que a transição aprofunde desigualdades, deixando países pobres sem recursos para se adaptarem ou se industrializarem de modo limpo.
9, Governar a internet, dados e ciberespaço, soberania digital em disputa
Dados atravessam fronteiras continuamente e se tornaram insumo econômico e estratégico. Estados buscam proteger privacidade, evitar espionagem e garantir que infraestrutura de comunicação seja confiável. Ao mesmo tempo, empresas operam globalmente e defendem fluxos livres de dados para eficiência e inovação. Essa tensão gera diferentes modelos de governança digital, desde abordagens mais abertas até estratégias de localização de dados e controle estatal.
A dimensão transnacional também inclui ameaças cibernéticas, ransomware, sabotagem, espionagem e manipulação informacional. Como atribuir ataques é difícil, e como a resposta pode escalar conflitos, muitos países investem em dissuasão, resiliência e acordos sobre comportamento responsável. Porém, a ausência de regras efetivas e a rápida evolução tecnológica tornam essa agenda permanentemente instável.
10, Responder à desinformação e à polarização transnacional, a política interna virou arena global
Campanhas coordenadas podem cruzar fronteiras para influenciar eleições, exacerbar tensões sociais e desacreditar instituições. A desinformação se beneficia de algoritmos, microsegmentação e falta de transparência em plataformas digitais. Ela também se combina com interesses econômicos, como cliques e publicidade, e com objetivos geopolíticos, como enfraquecer alianças ou reduzir apoio público a políticas específicas.
O desafio político é proteger liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, reduzir danos coletivos. Respostas eficazes incluem transparência algorítmica, rotulagem de conteúdo patrocinado, cooperação com plataformas, auditorias independentes e fortalecimento do jornalismo. Também é crucial educar cidadãos para avaliar fontes e reconhecer manipulações emocionais. Como o fenômeno é transnacional, padrões comuns entre países democráticos ajudam a reduzir a arbitragem regulatória, quando atores maliciosos operam a partir de jurisdições permissivas.
11, Reinventar diplomacia e multilateralismo, do protocolo à gestão de redes
Diplomacia precisa operar em ecossistemas, articulando governos, empresas, sociedade civil e academia. Em temas como saúde, clima, IA e padrões industriais, mesas tradicionais de negociação coexistem com fóruns técnicos e iniciativas privadas que criam normas de fato. Isso exige diplomatas com conhecimento especializado, capacidade de escuta e habilidade de construir coalizões flexíveis.
Multilateralismo também enfrenta crise de confiança, por lentidão decisória, rivalidades entre grandes potências e descompasso entre regras antigas e problemas novos. Uma resposta é fortalecer instituições existentes onde possível e criar mecanismos complementares quando necessário. A chave é evitar que fragmentação leve ao “cada um por si”, pois isso amplifica custos de coordenação e torna crises mais frequentes.
12, Fortalecer saúde global e preparação para pandemias, lições de uma interdependência biológica
Pandemias revelam o lado mais concreto do transnacionalismo, vírus circulam com pessoas e mercadorias, e sistemas de saúde colapsam em cascata. A competição por insumos, vacinas e equipamentos mostrou que cadeias globais são vulneráveis. Também expôs como informação científica pode ser politizada e como desigualdades de acesso têm consequências geopolíticas, alimentando ressentimentos e instabilidade.
Política global eficaz exige vigilância epidemiológica, transparência de dados, capacidade industrial distribuída e acordos sobre compartilhamento de amostras e tecnologias. Também envolve comunicação pública confiável e combate a fraudes. Um ponto sensível é equilibrar propriedade intelectual com necessidades de emergência, incentivando inovação sem impedir acesso em crises. Em última instância, preparação é uma política de seguro coletivo, e seu sucesso depende de coordenação transnacional constante, não apenas durante surtos.
13, Regular finanças globais e reduzir desigualdades, o transnacionalismo do dinheiro
Fluxos financeiros atravessam fronteiras em segundos, e isso cria oportunidades de investimento, mas também riscos de crise sistêmica, evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Para muitos países, a base tributária é corroída por planejamento agressivo de multinacionais e por riqueza escondida em jurisdições opacas. Essa dinâmica aumenta desigualdade e enfraquece capacidade do Estado de financiar serviços públicos, o que depois alimenta instabilidade e populismo.
Uma agenda global mais robusta passa por transparência de beneficiário final, troca automática de informações, harmonização mínima de impostos corporativos e vigilância macroprudencial coordenada. Também inclui olhar para o impacto social de choques financeiros, com redes de apoio e políticas anticíclicas. Em um mundo transnacional, justiça fiscal não é apenas moral, é condição de estabilidade política.
14, Enfrentar o avanço de tecnologias emergentes, IA, biotecnologia e autonomia militar
Tecnologias emergentes amplificam o transnacionalismo por difusão rápida e por uso dual, civil e militar. IA pode aumentar produtividade, mas também pode reforçar vigilância abusiva, discriminação algorítmica e propaganda automatizada. Biotecnologia pode curar doenças e, simultaneamente, criar riscos de biosegurança. Sistemas autônomos militares reduzem tempo de decisão e podem elevar probabilidade de escalada acidental.
Como essas tecnologias são desenvolvidas por redes globais de pesquisa e empresas que operam em muitos países, a governança precisa combinar regulação nacional com padrões internacionais. Auditorias, avaliações de risco, requisitos de segurança e controle de exportações são instrumentos, porém precisam ser calibrados para não travar colaboração científica benéfica. Uma abordagem pragmática foca em usos de alto risco, responsabilização e transparência, em vez de proibições genéricas difíceis de aplicar.
15, Construir estratégias nacionais para um mundo transnacional, capacidades, narrativa e adaptação contínua
Frente ao transnacionalismo, a política global deixa de ser apenas agenda externa e se torna política pública central. Isso exige Estados com instituições ágeis, dados confiáveis e capacidade de execução. Também exige narrativas honestas para a sociedade, explicando por que cooperação internacional não é caridade, e sim proteção de interesses nacionais em um ambiente interdependente. Sem esse vínculo com o público, qualquer política transnacional corre risco de rejeição interna.
Uma estratégia consistente passa por identificar dependências críticas, construir parcerias confiáveis, investir em educação e ciência, fortalecer infraestrutura e reduzir vulnerabilidades sociais que podem ser exploradas por influências externas. Também envolve preparar mecanismos de resposta a crises, com coordenação entre ministérios, setor privado e governos locais. O objetivo não é eliminar transnacionalismo, o que seria impossível, mas governá-lo de modo que traga benefícios e reduza riscos.
Checklist prático, como aplicar esses pontos em políticas e decisões do dia a dia
Conclusão editorial do DAILYINTIMES, transnacionalismo não é um inimigo, é o terreno onde a política global acontece
A Política Global Frente ao Transnacionalismo exige abandonar ilusões simples, tanto a ideia de que fronteiras sozinhas resolvem problemas, quanto a fantasia de que integração automática produz harmonia. O mundo real é uma mistura de cooperação e disputa, com redes que conectam sociedades e ampliam vulnerabilidades. Governos que entendem essa lógica conseguem proteger melhor seus cidadãos, aumentar resiliência econômica e exercer influência com mais inteligência.
O desafio desta década é construir governança capaz de acompanhar fluxos transnacionais sem sacrificar liberdade, democracia e desenvolvimento. Isso passa por instituições competentes, coalizões flexíveis, transparência, ciência e uma política interna menos vulnerável a manipulações. Em vez de perguntar se o transnacionalismo vai acabar, a pergunta estratégica é como moldá-lo, para que a interdependência seja fonte de segurança compartilhada e prosperidade, e não de crise permanente.