De olho nas terras raras, EUA agem em surdina no Brasil — e o país vive um momento decisivo
Enquanto o debate público se concentra em crises imediatas, uma disputa estratégica de longo prazo avança quase sem ruído no Brasil: o controle das chamadas terras raras. Essenciais para a indústria de alta tecnologia, defesa, energia limpa e inteligência artificial, esses minerais tornaram-se um dos principais focos da rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China.Nesse contexto, empresas norte-americanas vêm ampliando discretamente sua presença em mineradoras nacionais, seja por meio de participações acionárias, joint ventures ou fundos de investimento. Paralelamente, cresce o número de requerimentos de pesquisa mineral, muitos deles voltados não à produção imediata, mas à especulação fundiária e financeira.Trata-se de um movimento silencioso, mas estratégico: garantir acesso futuro a recursos críticos antes que o Brasil consolide uma política soberana para o setor.
O novo “petróleo” do século XXI
As terras raras — um grupo de 17 elementos químicos — são fundamentais para a fabricação de celulares, turbinas eólicas, baterias, chips, satélites, mísseis e carros elétricos. Sem elas, não há transição energética nem supremacia tecnológica.Hoje, a China domina mais de 70% da cadeia global desses minerais, desde a extração até o refino.Diante disso, os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência, diversificando fornecedores e incentivando investimentos externos em países estratégicos — como o Brasil.Com uma das maiores reservas do mundo, especialmente em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, o país tornou-se alvo prioritário dessa reconfiguração geoeconômica.
A corrida silenciosa pelas jazidas
Nos últimos anos, multiplicaram-se os pedidos de pesquisa junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). Muitos deles são feitos por empresas de fachada, subsidiárias estrangeiras ou fundos financeiros, cujo objetivo principal não é produzir, mas controlar territórios minerais.Na prática, cria-se um “estoque privado” de recursos estratégicos, que pode ser negociado futuramente com grandes corporações internacionais. A jazida vira ativo financeiro antes mesmo de virar riqueza produtiva.Esse processo repete a lógica histórica do extrativismo periférico: o Brasil entra com o recurso natural, enquanto o valor agregado, a tecnologia e os lucros ficam no exterior.
Por que o momento é único
O Brasil vive uma janela rara de oportunidade por três razões principais:
Reconfiguração geopolítica global A disputa EUA–China abre espaço para países fornecedores negociarem melhores condições.
Transição energética acelerada A demanda por minerais críticos tende a crescer por décadas.
Capacidade científica instalada O país já possui universidades, centros de pesquisa e know-how capazes de avançar no refino e na industrialização.
Se perder essa janela, o Brasil corre o risco de repetir o ciclo do minério de ferro e do petróleo: exportar matéria-prima barata e importar tecnologia cara.
O papel estratégico de uma empresa pública
Diante desse cenário, a criação ou fortalecimento de uma empresa pública voltada aos minerais estratégicos não é anacronismo — é política de soberania.Uma empresa estatal poderia:
Coordenar a pesquisa geológica;
Controlar áreas estratégicas;
Liderar parcerias tecnológicas;
Impedir a especulação predatória;
Internalizar etapas da cadeia produtiva;
Garantir transferência de tecnologia;
Articular políticas industriais.
Experiências internacionais mostram isso: a China, o Canadá e até os EUA utilizam empresas estatais ou fortemente reguladas nesse setor.Sem um ator público forte, o mercado tende a reproduzir a lógica rentista: extração rápida, baixo investimento local e fuga de valor.
Mais que mineração: uma política de desenvolvimento
A disputa pelas terras raras não é apenas sobre mineração. É sobre:
soberania tecnológica;
autonomia industrial;
segurança nacional;
posição do Brasil na nova economia mundial.
Reduzir o debate à “atração de investimentos” é ignorar o caráter estratégico desses recursos. Nem todo capital é neutro. Nem todo investimento é desenvolvimento.Sem planejamento estatal, o país pode se transformar apenas em um entreposto mineral da nova economia verde — verde para os outros, extrativista para nós.
Uma escolha histórica
O Brasil está diante de uma escolha:Ou constrói uma política nacional para minerais críticos, com protagonismo público, agregação de valor e visão de longo prazo;Ou entrega silenciosamente suas reservas ao jogo geopolítico das grandes potências, repetindo a dependência do passado.A disputa já começou. A diferença é que, desta vez, ela acontece em surdina.