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08 Nov

Como as grandes empresas dos EUA lucraram com a ''guerra ao terrorismo''


Os generais passaram para as empresas que lucram com a guerra, Dick Cheney contratou a Halliburton para privatizar o apoio ao exército e tornou-se o seu CEO,

 l\Lucrando com a privatização que preparou. Mas os grandes ganhadores da guerra são empresas de armamento, logística, construção e mercenários



 guerra afegã foi um desastre? Bem, não perguntem aos afegãos, incluindo as sete crianças que morreram no último ataque aéreo americano desta guerra, como é que eles estão, nem ao milhão que está à beira da fome, à medida que o país sofre uma seca devastadora e os preços dos alimentos disparam, ou ao milhão que pode mesmo morrer à fome, antes do final de 2021, no caos da tomada do poder pelos talibãs, da pobreza e do desemprego. E não perguntem também como estão aos muitos militares veteranos desta guerra que voltaram para casa com "feridas morais" ou pior. Conhecem igualmente a resposta a esta pergunta.

E quanto aos generais que supervisionaram a desastrosa guerra americana de 20 anos (e que mentiram regularmente sobre o seu curso)? Bem, isso é outra história. Como Isaac Stanley-Becker do Washington Post relatou recentemente, "os oito generais que comandaram as forças dos EUA no Afeganistão, entre 2008 e 2018, passaram a estar em mais de 20 conselhos de administração de empresas".

Desde a sua reforma, o General Stanley McChrystal, que supervisionou o aumento das tropas da era Obama neste país, tem sido membro da direção ou consultor de pelo menos dez empresas, ganhando milhões de dólares com elas. No ano passado, de forma bastante típica, o General Joseph F. Dunford Jr., comandante para o Afeganistão em 2013 e 2014, juntou-se ao Conselho da Lockheed Martin, o maior fornecedor do Pentágono. E não esqueçamos o Secretário da Defesa, Lloyd Austin, que, durante a sua carreira militar, foi chefe do Comando Central dos EUA, supervisionando as guerras no Afeganistão e no Iraque. Mais tarde, juntou-se à direção do gigante de armas Raytheon, ganhando cerca de 1,7 milhões de dólares pelo caminho.

No entanto, como o especialista em temas do Pentágono William Hartung observa, nada disto se compara à forma como o setor industrial do complexo militar-industrial e do Congresso lucrou com as desastrosas guerras infinitas deste país. Agora, com base num relatório que escreveu sobre o assunto para o Centro para a Política Internacional e o Projeto Custo da Guerra da Universidade de Brown, oferece a visão de um "sucesso" que parece não ter precedentes no contexto da catástrofe das intermináveis guerras perdidas por este país. Quem imaginaria algo assim?


Os custos e as consequências das guerras do século XXI, nos EUA, estão agora bem documentados: oito biliões ["trillions" nos EUA] de dólares em despesas e mais de 380.000 mortes de civis, de acordo com os cálculos da Universidade de Brown. A questão de saber quem beneficiou mais com uma tal orgia de despesas militares tem, infelizmente, recebido muito menos atenção.

Empresas, grandes e pequenas, saíram do banquete financeiro do aumento das despesas militares pós-11 de Setembro com somas verdadeiramente espantosas nos seus bolsos. Afinal, as despesas do Pentágono totalizaram a quase inimaginável soma de mais de 14 biliões de dólares desde o início da guerra do Afeganistão, em 2001, metade dos quais (respire fundo aqui) foi diretamente para os abastecedores do governo.

"A bolsa está agora aberta": a inundação de contratos militares pós 11 de Setembro

O clima político criado pela Guerra Global Contra o Terror (GWOT), como foi rapidamente chamada por funcionários da administração Bush, preparou o caminho para enormes aumentos no orçamento do Pentágono. No primeiro ano, após o 11 de Setembro e a invasão do Afeganistão, as despesas de "Defesa" aumentaram mais de 10%. E isso foi apenas o começo. De facto, aumentariam todos os anos durante a década seguinte, o que não tinha precedentes na história dos EUA. O orçamento do Pentágono atingiu, em 2010, o seu nível mais elevado, desde a Segunda Guerra Mundial – mais de 800 mil milhões de dólares, muito mais do que o país gastou nas suas forças no auge das guerras da Coreia e do Vietname ou durante a tão apregoada acumulação militar do Presidente Ronald Reagan, nos anos 80.

E, no novo clima político criado, pela reação ao 11 de Setembro, estes aumentos foram muito além dos gastos especificamente para a condução das guerras no Iraque e no Afeganistão. Como Harry Stonecipher, então vice-presidente da Boeing, disse ao Wall Street Journal, numa entrevista de Outubro de 2001, "a bolsa está agora aberta... Qualquer membro do Congresso que não vote nos fundos de que precisamos para defender este país ficará à procura de um novo emprego depois de Novembro próximo".

A profecia de Harry Stonecipher de um rápido aumento dos orçamentos do Pentágono provou ser verdadeira. E não chegou a parar. A administração Biden é tudo menos uma exceção. A sua última proposta de despesas para o Pentágono e as iniciativas de defesa relacionadas, como o desenvolvimento de ogivas nucleares no Departamento de Energia, ultrapassou 753 mil milhões de dólares para o ano fiscal de 2022. E, para não serem ultrapassados, as Comissões das Forças Armadas do Senado da Câmara dos Representantes e do Senado dos EUA já votaram no sentido de acrescentar cerca de 24 mil milhões de dólares a esta quantia espantosa.

Quem lucrou?

Os lucros do aumento das despesas do Pentágono após o 11 de Setembro foram distribuídos de uma forma muito concentrada. Mais de um terço de todos os contratos são agora adjudicados a apenas cinco grandes empresas de armamento – Lockheed Martin, Boeing, General Dynamics, Raytheon e Northrop Grumman. Estas cinco empresas receberam mais de 166 mil milhões de dólares em tais contratos, só no ano fiscal de 2020. Para colocar esse número em perspetiva, os 75 mil milhões de dólares em contratos do Pentágono adjudicados à Lockheed Martin nesse ano foram bem mais de uma vez e meia a totalidade do orçamento de 2020 do Departamento de Estado e da Agência para o Desenvolvimento Internacional. Para ambas as entidades, ascendeu a 44 mil milhões de dólares.

Embora seja verdade que os maiores beneficiários financeiros do aumento das despesas militares após o 11 de Setembro são estas cinco empresas de armamento, elas não são as únicas a beneficiar. As empresas que beneficiaram da acumulação militar nos últimos 20 anos incluem também empresas de logística e construção como a Kellogg, Brown & Root (KBR) e Bechtel, assim como empresas de segurança privadas como a Blackwater e a Dyncorp. O Serviço de Investigação do Congresso estima que no ano fiscal de 2020, as despesas com empresas de prestação de serviços de todos os tipos atingiram 420 mil milhões de dólares, bem mais de metade do orçamento total do Pentágono. As empresas das três categorias acima referidas tiraram partido das condições de "tempo de guerra” – condições em que a rapidez de entrega e uma fiscalização menos rigorosa eram consideradas a norma – para faturar em excesso ao governo e mesmo para o defraudar.

A empresa mais conhecida na reconstrução e logística no Iraque e Afeganistão foi a Halliburton, através da sua subsidiária KBR (Kellogg, Brown & Root). No início das guerras do Afeganistão e do Iraque, a Halliburton foi a beneficiária de contratos para o Programa de Reforço da Logística Civil do Pentágono. Estes acordos abertos previam a coordenação das funções de apoio às tropas no terreno, incluindo a criação de bases militares, a manutenção do equipamento e a prestação de serviços de restauração e de lavandaria. Em 2008, a empresa tinha recebido mais de 30 mil milhões de dólares por este trabalho.

O papel da Halliburton acabaria por se revelar controverso, tresandando a auto-contratação e corrupção total. A ideia de privatizar os serviços de apoio militar foi lançada no início dos anos 1990 por Dick Cheney, quando era Secretário da Defesa na administração George H.W. Bush, e foi dado à Halliburton o contrato para determinar como proceder. Penso que não ficará surpreendido por saber que Dick Cheney se tornou CEO da Halliburton até se tornar Vice-Presidente sob a direção de George W. Bush em 2001. A sua carreira foi um caso clássico (se não o caso clássico) de "portas giratórias" entre o Pentágono e a indústria da defesa, utilizada hoje em dia por tantos funcionários governamentais e generais ou almirantes, com todos os conflitos de interesse óbvios que isso implica.

Assim que conseguiu os seus milhares de milhões para o trabalho no Iraque, a Halliburton começou a cobrar excessivamente ao Pentágono por serviços básicos, ao mesmo tempo que fazia um trabalho de má qualidade que punha em perigo as tropas dos EUA – e acabou por estar tudo menos sozinha neste tipo de atividade.

A partir de 2004, um ano após o início da guerra do Iraque, o Inspector Geral Especial para a Reconstrução do Iraque, uma agência mandatada pelo Congresso para erradicar o desperdício, a fraude e o abuso, e os responsáveis do Congresso pela supervisão como Henry Waxman (Democrata da Califórnia), revelaram dezenas de exemplos de sobre-faturação, construção defeituosa e roubo direto por prestadores de serviços envolvidos na "reconstrução" daquele país. Mais uma vez, provavelmente não ficará surpreendido ao saber que foram relativamente poucas as empresas a sofrer consequências financeiras ou criminais significativas para o que só pode ser descrito como exploração de guerra. A Comissão do Congresso sobre Contratação em Tempo de Guerra no Iraque e Afeganistão estimou que, até 2011, o desperdício, a fraude e os abusos nas duas zonas de guerra já tinham totalizado entre 31 e 60 mil milhões de dólares.

Um caso em análise é o da International Oil Trading Company que recebeu contratos no valor de 2,7 mil milhões de dólares da Agência de Logística de Defesa do Pentágono para fornecer combustível às operações dos EUA no Iraque. Uma investigação do congressista Henry Waxman, presidente do Comité de Fiscalização e Reforma do Governo da Câmara, descobriu que a empresa cobrava rotineiramente demasiado ao Pentágono pelo combustível que enviava para o Iraque, obtendo mais de 200 milhões de dólares em lucros sobre vendas de petróleo no valor de 1,4 mil milhões de dólares entre 2004 e 2008. Mais de um terço destes fundos foi para o seu proprietário, Harry Sargeant III, que presidiu às finanças do Partido Republicano da Florida. Henry Waxman resumiu a situação da seguinte forma: "Os documentos mostram que a empresa de Harry Sargeant III tirou partido dos contribuintes dos Estados Unidos. Apenas a sua empresa tinha a licença para transportar combustível através da Jordânia, o que lhe permitia cobrar preços exorbitantes. Nunca vi uma situação como esta.”

Um caso particularmente flagrante de trabalho de má qualidade com trágicas consequências humanas envolveu a eletrocussão de pelo menos 18 militares em várias bases no Iraque a partir de 2004. Isto ocorreu em resultado de instalações elétricas defeituosas, algumas das quais foram levadas a cabo pela KBR e as suas subcontratadas. Uma investigação do Inspetor Geral do Pentágono concluiu que os comandantes no terreno tinham "falhado em garantir que as renovações... fossem feitas corretamente, que o Exército não estabeleceu normas para a obra ou os empreiteiros e que a KBR não ligou à terra o equipamento elétrico que instalou na base.”

O processo de “reconstrução” do Afeganistão estava igualmente pejado de exemplos de fraude, de desperdício e de desvio. Por exemplo, um grupo de trabalho económico nomeado pelos EUA gastou 43 milhões de dólares para a construção de uma estação de serviço de combustíveis no meio do nada e que nunca seria utilizada. Juntam-se 150 milhões de dólares suplementares para os alojamentos sumptuosos destinados aos conselheiros económicos dos Estados Unidos e os três milhões de dólares pelos barcos patrulheiros da polícia afegã.

Mais inquietante ainda, uma investigação do Congresso descobriu que uma parte significativa dos contratos de transporte no valor de 2 mil milhões de dólares adjudicados a empresas americanas e afegãs acabaram por ser subornos a senhores da guerra e funcionários da polícia ou pagamentos aos talibãs para permitir a passagem de grandes comboios de camiões por áreas por eles controladas, por vezes até 1.500 dólares por camião, ou até meio milhão de dólares por cada 300 comboios de camiões. Em 2009, a Secretária de Estado Hillary Clinton afirmou que "uma das principais fontes de financiamento para os talibãs é o dinheiro de proteção" pago através destes contratos de transporte.

Uma explosão de lucros das empresas privadas de "segurança" nas últimas duas décadas

Uma segunda fonte de receitas para as empresas envolvidas nestas guerras foram para as empresas de segurança privadas, algumas das quais guardavam instalações norte-americanas ou infraestruturas sensíveis, tais como oleodutos iraquianos.

A mais famosa de todas foi, evidentemente, a Blackwater, cujos empregados estiveram envolvidos no massacre, em 2007, de 17 iraquianos na Praça Nisour, em Bagdade. Abriram fogo sobre civis num cruzamento apinhado, ao mesmo tempo que proporcionavam segurança a uma caravana da embaixada dos EUA. O ataque levou a processos judiciais e civis que continuaram na era Trump, quando vários perpetradores do massacre foram perdoados pelo presidente.

No seguimento deste massacres, a Blackwater foi rebatizada várias vezes, primeiro como XEServices, depois como Academii, antes de se fundir com a Triple Canopy, outra empresa de segurança privada. O fundador da Blackwater, Erik Prince, separou-se mais tarde da empresa, mas desde então tem recrutado mercenários privados, em nome dos Emirados Árabes Unidos a fim de os destacar para a guerra civil líbia, em violação dum embargo de armas da ONU. Erik Prince também propôs, sem sucesso, à administração Trump recrutar uma força mercenária privada para formar a espinha dorsal do esforço de guerra dos EUA, no Afeganistão.

Outra tarefa assumida por empresas privadas, a Titan e a CACI International, foram os interrogatórios de prisioneiros iraquianos. Ambas as empresas tinham agentes interrogadores e tradutores dentro das paredes da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, local onde estes prisioneiros eram brutalmente torturados.

O número de pessoas destacado e as receitas recebidas pelas empresas de "segurança e reconstrução" aumentaram drasticamente ao longo das guerras, no Iraque e no Afeganistão. O Serviço de Investigação do Congresso estimou que, em março de 2011, havia mais funcionários de empresas de prestação de serviços no Iraque e no Afeganistão (155.000), do que pessoal militar uniformizado dos EUA (145.000). No seu relatório final, em agosto de 2011, a Comissão sobre Contratação em Tempo de Guerra no Iraque e Afeganistão colocou o número ainda mais alto, afirmando que "as forças mercenárias representam mais de metade da presença dos EUA em operações de ajuda e de emergência, no Iraque e no Afeganistão, empregando por vezes mais de um quarto de milhão de pessoas".

Enquanto um mercenário armado que tivesse servido nos fuzileiros navais norte-americanos podia ganhar até 200.000 dólares por ano no Iraque, cerca de três quartos da força de trabalho era constituída por pessoas de países como o Nepal ou Filipinas ou por cidadãos iraquianos. Estes eram mal pagos, recebendo por vezes apenas 3.000 dólares por ano. Uma análise realizada, em 2017, pelo projeto Custos da Guerra descreveu as "abomináveis condições de trabalho" e as grandes violações dos direitos humanos infligidas a estrangeiros que trabalham em projetos financiados pelos EUA, no Afeganistão, incluindo rapto, roubo de salários, mortes e acidentes em zonas de conflito.

Com os militares americanos no Iraque reduzidos a um número relativamente pequeno de "conselheiros" armados e já sem forças armadas no Afeganistão, estas empresas estão agora à procura de clientes estrangeiros. Por exemplo, uma empresa americana – Tier 1Group, fundada por um antigo funcionário da Blackwater – formou quatro dos agentes sauditas envolvidos no assassinato do jornalista e residente nos EUA, Jamal Khashoggi, um esforço financiado pelo governo saudita. Tal como o New York Times observou, quando publicou esta história: "É provável que estes problemas continuem à medida que as empresas militares privadas dos EUA se voltam cada vez mais para clientes estrangeiros para apoiarem os seus negócios, à medida que os EUA reequilibram os seus destacamentos no estrangeiro, após duas décadas de guerra".

Acrescente-se outro fator à explosão dos lucros das empresas de armamento durante as duas décadas da "guerra ao terror". As vendas de armas ao estrangeiro também aumentaram acentuadamente durante este período. O mercado mais importante e controverso de armas dos EUA, nos últimos anos, tem sido o Médio Oriente, particularmente as vendas a países como a Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, que estiveram envolvidos numa guerra devastadora no Iémen, enquanto alimentavam conflitos noutros locais da região.

Donald Trump fez o maior ruído sobre as vendas de armas ao Médio Oriente e os seus benefícios para a economia dos EUA. No entanto, os gigantes do armamento venderam efetivamente mais armas à Arábia Saudita, em média, durante a administração Obama, incluindo três grandes entregas, em 2010, que totalizaram mais de 60 mil milhões de dólares para caças, helicópteros de ataque, veículos blindados, bombas, mísseis e armas – praticamente um arsenal inteiro. Muitos destes sistemas de armamento foram utilizados pelos sauditas na sua intervenção no Iémen, o que resultou na morte de milhares de civis em ataques aéreos indiscriminados e na imposição de um bloqueio que contribuiu largamente para a morte de quase um quarto de milhão de pessoas até à data.

Lucros infinitos da guerra?

A fim de reduzir os lucros "excessivos" das empresas de armamento e evitar o desperdício, a fraude e o abuso, por parte das chamadas empresas privadas de segurança envolvidas no apoio às operações militares dos EUA, será necessário reduzir as despesas com a guerra e os preparativos para a guerra. Infelizmente, até agora, os orçamentos do Pentágono estão apenas a aumentar e as cinco grandes empresas de armamento estão a receber cada vez mais dinheiro.

Para alterar este padrão notavelmente consistente, é necessária uma nova estratégia, uma estratégia que aumente o papel da diplomacia dos EUA, ao mesmo tempo que se concentra nos desafios emergentes e persistentes de segurança não-militar. A "segurança nacional" precisa de ser redefinida, não em termos de uma nova "guerra fria" com a China mas para se concentrar em questões críticas como as pandemias e as alterações climáticas.

É tempo de acabar com as intervenções militares estrangeiras diretas e indiretas que os EUA levaram a cabo no Afeganistão, Iraque, Síria, Somália, Iémen

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