
Muitas vezes ganhamos as eleições com discurso de esquerda e, quando começamos a governar, pensamos muito mais nos interesses dos nossos inimigos do que nos dos nossos amigos. Muitas vezes, a gente governa dando resposta à cobrança do mercado, à necessidade de contentar o mercado, a necessidade de contentar os adversários, e muitas vezes, os nossos eleitores são considerados por nós sectários e radicais.
Esse é o fracasso da democracia.”
A fala representa um movimento significativo: o Lula conciliador parece ceder espaço a um Lula mais combativo, e seu diagnóstico é de uma precisão que vai ao encontro da percepção de grande parte das ciências sociais, tanto no Brasil quanto no exterior. Segundo essa análise, a extrema-direita não surge do nada; ela floresce nas ruínas do neoliberalismo – usando a expressão de Wendy Brown –,
Capitalizando a indignação dos trabalhadores com as injustiças sistêmicas.Há um risco real de que setores progressistas se tornem uma casta bem-educada e cosmopolita – uma “esquerda brâmane” –, mais preocupada em administrar o Estado dentro dos limites da ortodoxia econômica do que em promover transformações estruturais que afetem as grandes massas excluídas.
Esse fenômeno, analisado por cientistas políticos como Matthew Karp – em sintonia com autores como Thomas Piketty, Dylan Riley e Robert Brenner –, é o que teria acontecido, por exemplo, com o Partido Democrata nos Estados Unidos.r
Nesse contexto, a crise de representação torna-se terreno fértil para o populismo de direita. Se a esquerda não cumpre seu papel histórico de canalizar as demandas por justiça social, outro ator ocupará esse vazio, e o fará, via de regra, contra a própria democracia.
O crescimento da extrema-direita é, portanto, menos a causa e mais um sintoma da frustração popular com governos que, eleitos pela promessa de mudança, optam pela perpetuação do status quo.Um paralelo importante com os Estados Unidos ajuda a ilustrar essa dinâmica.
Ambos os países: a queda da participação da indústria no PIB e no emprego, iniciada nos anos 1980, gerou insatisfação em setores da classe trabalhadora, que passaram a apoiar líderes antidemocráticos e antiestablishment.
Além disso, o crescimento da influência evangélica conservadora e as divisões geográficas – como o apoio do “interior profundo” nos EUA e das regiões do agronegócio no Brasil – fortaleceram essas lideranças.Esses fatores ajudam a entender a sincronicidade com dois anos de intervalo de fenômenos como Trump e Bolsonaro, e os ataques de 6 de janeiro nos EUA
.Esse processo de desalento político foi drasticamente acelerado pela crise financeira global de 2008, que marcou um ponto de virada definitivo.
O colapso do sistema financeiro, longe de resultar em uma guinada à esquerda, paradoxalmente fortaleceu a ortodoxia econômica em muitos países sob governos teoricamente progressistas.
Partidos socialdemocratas e trabalhistas, como o de Barack Obama nos EUA e o de Tony Blair no Reino Unido, responderam à crise aprofundando políticas neoliberais – a chamada Terceira Via –, o que alienou de vez suas bases tradicionais.
O período também testemunhou a ascensão e subsequente capitulação de movimentos de esquerda anti-establishment, como o Syriza na Grécia.
Essa trajetória de frustração é o fio condutor: quando a esquerda eleita governa dentro dos estreitos limites do possível para as elites, abre flanco para que narrativas antissistêmicas de direita, mesmo as reacionárias, soem como uma resposta mais palpável aos excluídos.
As recentes iniciativas do governo Lula sinalizam uma tentativa clara de recompor esse pacto democrático quebrado. No entanto, o sucesso dessa estratégia não é garantido, e o exemplo de Joe Biden serve como um alerta necessário. Biden promoveu uma agenda econômica (o “Bidenomics“) notadamente pró-trabalhador, naquilo que chegou a ser visto como uma tentativa de ruptura com o neoliberalismo.
No entanto, seus esforços foram em grande parte minados por forças contrárias, como um Congresso hostil e a pressão do mercado financeiro.
O paralelo não é perfeito – Trump não foi condenado, diferentemente de Bolsonaro, e a idade de Biden pesou em sua avaliação –, mas o recado é claro: a disposição reformista é crucial, mas insuficiente se não for capaz de construir uma força política capaz de enfrentar e superar as resistências estruturais que perpetuam o status quo.O caminho para evitar o fracasso da democracia, citado por Lula, está sendo traçado. O desafio hercúleo agora é consolidá-lo.
As recentes iniciativas do governo Lula – da campanha pela taxação dos super-ricos à postura altiva contra-retaliações internacionais e a possível nomeação de Guilherme Boulos – sinalizam uma tentativa clara de recompor esse pacto democrático quebrado. O caminho, portanto, está sendo traçado. O desafio agora é consolidá-lo.
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