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22 Dec

O que é nacionalismo cristão?

Uma explanação sobre como essa crença difere de outras formas de nacionalismo, do patriotismo e do cristianismo.


  1. Você provavelmente já viu manchetes recentes sobre os males do nacionalismo cristão, especialmente desde dois episódios: a Marcha de Jericó, que aconteceu no mês de dezembro, em Washington, DC, e o episódio em que uma multidão de apoiadores de Trump — SAIRAO COM símbolos, slogans ou emblemas cristãos — se rebelou e invadiu o Capitólio dos EUA, no dia 6 de janeiro.Afinal, o que é nacionalismo cristão e em que ele difere do cristianismo? Ou do patriotismo?

  2. Como deve ser o pensamento dos cristãos com relação a nações, em especial sobre os Estados Unidos? Se o nacionalismo é algo ruim, isso significa que devemos rejeitar por completo a nacionalidade e a lealdade nacional?

    O que é patriotismo; é algo bom?

    Patriotismo é o amor ao país. É diferente do nacionalismo, que é uma discussão sobre como definir nosso país.

  3. Os cristãos devem reconhecer que o patriotismo é bom porque toda a criação de Deus é boa, e o patriotismo nos ajuda a apreciar nosso lugar específico dentro dessa criação.

  4. Nosso afeto e lealdade em relação a uma parte específica da criação de Deus nos ajudam a fazer a boa obra de cultivar e melhorar o pedaço da criação no qual vivemos. Como cristãos, podemos e devemos amar os Estados Unidos — o que também significa trabalhar para melhorar nosso país, mantendo-o aberto a críticas e trabalhando por justiça, quando ele errar.

    O que é nacionalismo?

    Existem muitas definições de nacionalismo e um debate intenso sobre a melhor forma de conceituá-lo. Revisei a literatura acadêmica padrão sobre nacionalismo, e encontrei vários temas recorrentes.

  5.  A maioria dos estudiosos concorda que o nacionalismo começa com a crença de que a humanidade é divisível em grupos culturais mutuamente distintos e internamente coesos, definidos por traços compartilhados como idioma, religião, etnia ou cultura.

  6. Partindo disso, segundo os estudiosos, os nacionalistas acreditam que cada um desses grupos deve ter seu próprio governo; que os governos devem promover e proteger a identidade cultural de uma nação; e que grupos nacionais soberanos fornecem significado e propósito para os seres humanos.

    O que é nacionalismo cristão?

    Nacionalismo cristão é a crença de que a nação americana é definida pelo cristianismo e que o governo deve tomar medidas efetivas para mantê-la assim. Popularmente, os nacionalistas cristãos afirmam que os EUA são e devem continuar a ser uma “nação cristã” — não apenas como uma observação relativa à história americana, mas como um programa prescritivo para aquilo que o país deve continuar a ser no futuro.

  7.  Estudiosos como Samuel Huntington defenderam uma tese semelhante: que os EUA são definidos por seu passado “anglo-protestante”, e que perderemos nossa identidade e nossa liberdade se não preservarmos nossa herança cultural

  8. .Os nacionalistas cristãos não rejeitam a Primeira Emenda e não defendem a teocracia, mas acreditam que o cristianismo deve desfrutar de uma posição privilegiada na arena pública. 

  9. O termo “nacionalismo cristão” é relativamente novo, e seus defensores geralmente não o usam em relação a si mesmos, embora ele descreva com precisão os nacionalistas americanos, que acreditam que a identidade americana é inseparável do cristianismo

    PROBLEMAS 

  10. Qual é o problema com o nacionalismo?

    A humanidade não é facilmente divisível em unidades culturais mutuamente distintas.

  11. As culturas se sobrepõem e suas fronteiras são confusas. Uma vez que as unidades culturais são difusas, elas não servem como uma boa base para a ordem política. As identidades culturais são fluidas e é difícil traçar suas fronteiras, embora as fronteiras políticas sejam rígidas e semi permanentes. 

  12. Tentar estabelecer a legitimidade política com base em semelhanças culturais significa que a ordem política correrá constante risco de ser vista como ilegítima por um ou outro grupo. O pluralismo cultural é algo em essência inevitável em todas as nações.

    Mas isso é realmente um problema ou apenas uma preocupação abstrata?

    É um problema sério.

  13.  Quando os nacionalistas dedicam-se a edificar sua nação, eles têm de definir quem faz e quem não faz parte dela. Mas sempre há dissidentes e minorias que não se enquadram ou não conseguem se conformar ao modelo cultural preferido dos nacionalistas.

  14.  E na ausência de autoridade moral, os nacionalistas só podem se estabelecer por meio da força. Os estudiosos são quase unânimes em afirmar que os governos nacionalistas tendem a se tornar autoritários e opressores na prática. 

  15. Por exemplo, em gerações anteriores, uma vez que os Estados Unidos tinham o protestantismo como religião praticamente oficial, não respeitavam a verdadeira liberdade religiosa. 

  16. O que é ainda pior, os Estados Unidos e muitos estados da federação usaram o cristianismo como um instrumento para apoiar a escravidão e a segregação.

    O que os nacionalistas cristãos desejam, e em que isso difere do engajamento cristão normal na política?

    Os nacionalistas cristãos querem definir os EUA como uma nação cristã, e querem que o governo promova um modelo cultural específico como a cultura oficial do país. Alguns têm defendido que seja feita uma emenda à Constituição, a fim de reconhecer a herança cristã do país. 

  17. Outros a defendem a fim de reinstituir a oração nas escolas públicas. Alguns trabalham para entronizar uma interpretação nacionalista cristã da história americana nos currículos escolares, que inclua a visão de que os EUA têm um relacionamento especial com Deus ou foram “escolhidos” por Ele para cumprir uma missão especial na terra.

  18.  Outros defendem restrições à imigração, mais especificamente para evitar uma mudança na demografia religiosa e étnica americana ou uma mudança na cultura americana. 

  19. Outros ainda desejam dar mais poder ao governo, a fim de que tome medidas mais firmes para coibir o comportamento imoral.Parte deles — como o estudioso Samuel Huntington, por exemplo — têm argumentado que o governo dos Estados Unidos deve defender e consagrar como predominante a sua cultura “anglo-protestante”, com o intuito de garantir a sobrevivência da democracia americana.

  20. E, às vezes, o nacionalismo cristão fica mais evidente não por sua agenda política, mas pelo tipo de atitude com que é sustentado: uma presunção não declarada de que os cristãos têm direito a um lugar de primazia na arena pública, pois são herdeiros do legado verdadeiro ou essencial da cultura americana, e também de que os cristãos têm o direito presumido de definir o significado da experiência americana, porque se veem como os arquitetos, primeiros cidadãos e guardiões da América.Article continues below

    Como isso é perigoso para os EUA?

    O nacionalismo cristão tende a tratar os outros americanos como cidadãos de segunda classe. Se fosse totalmente implementado, não respeitaria a plena liberdade religiosa de todos os americanos. Aumentar o poder do Estado por meio de “legislações morais”, visando regulamentar condutas, sempre traz o risco de exageros, que estabeleceriam um precedente ruim e concederiam poderes ao governo que mais tarde poderiam vir a ser usados contra os cristãos.

  21. Além disso, o nacionalismo cristão é uma ideologia predominantemente sustentada por americanos brancos e, portanto, tende a exacerbar as divisões raciais e étnicas. Nos últimos anos, o movimento tem crescido como algo cada vez mais caracterizado pelo medo e pela crença de que os cristãos são vítimas de perseguição. Alguns estão começando a defender que os cristãos americanos precisam se preparar para lutar, fisicamente, para preservar a identidade da América, um argumento que contribuiu para os acontecimentos de 6 de janeiro.

    Como o nacionalismo cristão é perigoso para a igreja?

    O nacionalismo cristão carrega o nome de Cristo para uma agenda política terrena, proclamando que seu programa é o programa político para todo crente verdadeiro.

  22.  Isso está errado em princípio, não importa qual seja a agenda, pois somente a igreja está autorizada a proclamar o nome de Jesus e a levar seu padrão ao mundo. É ainda pior quando um movimento político defende algumas causas injustas, como é o caso do nacionalismo cristão e do iliberalismo que o acompanha. 

  23. Nesse caso, o nacionalismo cristão está chamando o mal de bem e o bem de mal; está usando o nome de Cristo como uma folha de figueira para cobrir seu programa político, tratando a mensagem de Jesus como uma ferramenta de propaganda política, e a igreja como serva e líder de torcida do Estado.

    Como o cristianismo é diferente do nacionalismo cristão?

    O cristianismo é uma religião que se concentra na pessoa e na obra de Jesus Cristo, definidas segundo a Bíblia cristã e os Credos Apostólico e Niceno.

  24.  É o ajuntamento de pessoas “de todas as nações, tribos, povos e línguas”, que adoram a Jesus (Ap 7.9); é uma fé que une judeus e gregos, americanos e não americanos.

  25.  O cristianismo é político, no sentido de que seus adeptos sempre entenderam sua fé como algo que se presta a desafiar, afetar e transcender suas lealdades terrenas — embora não haja uma visão única sobre quais implicações políticas fluem da fé cristã, exceto que devemos temer a Deus, honrar o rei (1Pe 2.17), pagar nossos impostos, amar nosso próximo e buscar a justiça

  26. .O nacionalismo cristão é, em contraste, uma ideologia política que se concentra na identidade nacional dos Estados Unidos. Inclui uma compreensão específica da história americana e do governo americano que são, obviamente, extrabíblicos — uma compreensão que é contestada por muitos historiadores e cientistas políticos.

  27. E o que é mais importante, o nacionalismo cristão inclui prescrições de políticas específicas que alega serem bíblicas, mas que são, na melhor das hipóteses, extrapolações de princípios bíblicos e, na pior, contraditórias a eles.Article continues below

    Os cristãos podem ser politicamente engajados sem serem nacionalistas cristãos?.

    Sim. Os cristãos americanos, no passado, foram exemplares em ajudar a estabelecer a experiência americana, sendo que muitos cristãos americanos trabalharam para acabar com a escravidão, a segregação e outros males.

  28.  Eles assim fizeram porque acreditavam que o cristianismo exigia que eles trabalhassem por justiça. Mas eles trabalharam para promover os princípios cristãos, e não o poder cristão ou a cultura cristã, que é a principal distinção entre o engajamento político cristão normal e o nacionalismo cristão..

  29.  O engajamento político cristão normal é humilde, amoroso e sacrificial; rejeita a ideia de que os cristãos tenham direito a um lugar de primazia na arena pública, ou que tenham direito presuntivo de dar continuidade à sua predominância histórica na cultura americana.

  30.  Hoje, os cristãos devem procurar amar seu próximo buscando justiça na arena pública, inclusive trabalhando contra o aborto, promovendo a liberdade religiosa, fomentando a justiça racial, protegendo o Estado de direito e honrando os processos constitucionais. Essa agenda é diferente de promover a cultura cristã, a herança ocidental ou os valores anglo-protestantes

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