O que torna a frase polêmica (e um pouco verdadeira)
Depende do que se considera “barato”. Se olharmos para números globais:
Custo direto estimado por organizações como FAO e PMA: Cerca de US$ 40 bilhões por ano (algo entre R$ 200 e R$ 250 bilhões) para acabar com a fome aguda no mundo.
Comparação: isso representa menos de 0,1% do PIB global.
Para referência, o mundo gastou US$ 2,2 trilhões em despesas militares em 2023.
Sob essa ótica, sim, o custo é “barato” diante da riqueza global. É menos do que os americanos gastam por ano em comida de estimação.
Por que, na prática, não é tão simples
Logística e infraestrutura
Levar comida a zonas de guerra, áreas isoladas da Amazônia, Sahel ou Afeganistão custa caro. Fome não está só em lugares de fácil acesso.
Fome ≠ falta de comida no mundo
Hoje produzimos comida para mais de 10 bilhões de pessoas. O problema é acesso: as pessoas não têm dinheiro para comprar.
Resolver isso exige combater pobreza, gerar empregos, reforma agrária, educação – e isso não é barato.
Soluções permanentes vs. ajuda emergencial
Dar cesta básica é barato no curto prazo, mas não resolve a causa.
Investir em agricultura familiar, armazenamento, estradas, saneamento, escolas e saúde custa centenas de bilhões ao longo de décadas.
Corrupção e má gestão
Países com fome crônica geralmente têm governos frágeis ou corruptos. O dinheiro “barato” não chega a quem precisa.
E no Brasil?
Segundo estudos recentes (FGV, Unicamp), o custo estimado para tirar o país do Mapa da Fome novamente seria de R$ 20 a 30 bilhões por ano– principalmente com:
Ampliação do Bolsa Família / programas de renda
Restauração do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos)
Merenda escolar universal e de qualidade
Esse valor é menos de 0,3% do PIB brasileiro. Comparado aos R$ 400 bilhões de renúncias fiscais (isenções de impostos para setores ricos), é barato. O problema é vontade política, não dinheiro.
Conclusão final
“Erradicar a fome é muito barato” é uma verdade retórica – um grito de atenção. No papel, o custo direto é irrisório comparado ao que gastamos com futilidades ou armas. Mas na realidade, o desafio é político, logístico e estrutural. O barato vira caro quando não há vontade de fazer a comida chegar a quem precisa.