Narrativa de Trump sobre “narcoestado” não se sustenta
Narrativa de Trump sobre “narcoestado” não se sustenta
04 Jan
De acordo com eles, a caracterização da Venezuela como um “narcoestado”, usada como um pretexto para legitimar a intervenção e se apropriar dos recursos naturais do país, é falsa
A principal justificativa apresentada por Trump e por integrantes de seu governo é a de que a Venezuela funcionaria como um “narcoestado”, com Maduro atuando como líder ou articulador de cartéis de drogas responsáveis por abastecer o mercado norte-americano.
Mais de 80% da cocaína consumida nos Estados Unidos vem da Colômbia.
Qual o sentido de Maduro ser chefe de cartel, se a Colômbia tem saída pelo Pacífico e pelo Atlântico? Por que alguém precisaria usar a Venezuela para fazer essa droga chegar aos Estados Unidos?
Isso não faz o menor sentido”, afirma o jornalista Rodrigo Vianna.Vianna atua no Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e esteve na Venezuela em diferentes momentos históricos, acompanhando eleições, plebiscitos e a morte do líder bolivariano Hugo Chávez.
Para ele, a insistência de Trump em classificar a Venezuela como um “narcoestado” não responde a fatos verificáveis, mas à necessidade de construir uma justificativa simples e mobilizadora para os norte-americanos.
“A justificativa é para o público interno, os eleitores mais extremistas do Trump,
. Se ele vai para uma intervenção internacional, como é que ele pode justificar isso?
Ele precisa dar uma justificativa que tenha algum eco para esse público interno”,
“A Venezuela não é um país produtor de cocaína nem possui grandes hectares de cultivo.
No pior dos casos, é apontada como território de trânsito dentro da cadeia do narcotráfico”, afirmou Becerra.
“É evidente que Nicolás Maduro não representa uma liderança como chefe ou articulador de um cartel e, consequentemente, é falso concluir que esse chefe de Estado seja um articulador dos cartéis de drogas”, cravou.
Ao detalhar a dinâmica regional do narcotráfico, contrasta a situação venezuelana com a dos países que concentram efetivamente a produção de cocaína na América do Sul.“
Nós, na Colômbia, temos em média cerca de 260 mil hectares de cultivo de coca e uma produção potencial de aproximadamente 3 mil toneladas métricas de cocaína. Somos, sem dúvida, um dos maiores países produtores, junto com outros países andinos como o Peru e a Bolívia.
Em nenhuma cifra oficial o Estado venezuelano, a geografia da Venezuela, se aproxima desses números”,
Ao tratar das consequências práticas desse tipo de intervenção, Becerra afirma que o impacto vai muito além da Venezuela e se manifesta de forma direta em toda a região, especialmente nas zonas de fronteira.
“Esse tipo de intervenção favorece a militarização do território e das fronteiras, contribui para a degradação humanitária nessas zonas e provoca um reacomodo das rotas do narcotráfico e das economias criminosas, que não desaparecem, mas se adaptam às novas circunstâncias”, afirmou.
Segundo Becerra, o intervencionismo tem efeitos diretos sobre a cooperação entre os países da região. A lógica adotada, segundo ele, “rompe com as possibilidades de integração regional, não prioriza a diplomacia para resolver os conflitos e atenta contra a paz e a segurança de Nossa América”
.O parlamentar sustenta ainda que a ofensiva liderada pelos Estados Unidos não deve ser lida como um episódio isolado restrito à Venezuela. “Essa ameaça não é apenas contra a Venezuela.
É uma ameaça contra toda a região latino-americana”, afirmou, ao defender a necessidade de uma resposta coletiva. A seu ver, diante da escalada intervencionista, “é preciso preparar uma resposta regional articulada” para preservar a soberania dos países da América Latina.