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31 Jan
  1. Uma ofensiva organizada por uma constelação de forças de direita nos Estados Unidos está promovendo ideias inacreditáveis, não apenas a anulação do sufrágio universal, mas também a reversão dos direitos e liberdades constitucionais das mulheres, das minorias raciais e da comunidade gay. 

  2. Também pretende proibir livros e o ensino da história social – incluindo as raízes do racismo no país –, promover campanhas anti vacina, anti ciência e contra medidas de prevenção da pandemia, como o uso de máscaras faciais. Algumas correntes se preparam para ações armadas, as quais, segundo eles, serviriam para defender o país contra “comunistas, anarquistas e outros radicais”, incluindo pessoas que apoiam o setor mais centrista do Partido Democrata.


    Muito disso não é novo, mas seu tamanho e poder político são suficientes para causar alarmismo na Casa Branca, nos legisladores e nas organizações defensoras das liberdades e direitos civis. O que está em jogo são as bases democráticas da república estadunidense.


    Toda essa movimentação faz parte do legado cultivado por Donald Trump, que mantém quase todo o Partido Republicano subordinado aos seus caprichos e aos dos grupos extremistas que o apoiam, incluindo aqueles que participaram do assalto ao Capitólio em janeiro de 2021 – uma tentativa de golpe, evento sem precedentes na história do país.


    A agenda política que a direita estadunidense promoveu com Trump por quatro anos é defendida hoje pelos legisladores republicanos, que atuam para reprimir esforços em favor do sufrágio universal, fazendo valer a maioria conservadora na Suprema Corte. O direito ao voto está em risco a nível nacional, e não somente isso. São ainda mais eficazes os esforços da direita em alguns estados e cidades também administrados pelo Partido Republicano.


    É nessas esferas regionais que se encontra maior força dessa ofensiva para suprimir e até subverter o voto. Existem mais de 440 projetos de lei, tramitando em 49 estados do país, que visam obstaculizar ou dificultar o exercício do voto, especialmente minorias raciais e sociais. Segundo a fundação Brennan Center for Justice, 34 leis para limitar o direito ao voto já foram aprovadas no país.


    Nos estados onde o Partido Republicano governa ou domina a assembleia estadual, a ofensiva consegue usar esse poder para redesenhar as regras eleitorais de forma a consolidar esse controle e dividir o eleitorado que tende a votar contra eles. O Partido Democrata tenta fazer mesmo nos estados em que governa, mas não com tanta eficácia.


    Além disso, a campanha também pretende impor leis para anular o direito das mulheres ao aborto através dos serviços de saúde, anular avanços nos direitos civis da comunidade gay, ampliar a influência de igrejas conservadoras na política, em finalmente, “proteger” e expandir o “direito” de comprar e portar armas de fogo – quase tudo relacionado a armas privadas é regulamentado em nível estadual nos Estados Unidos.


    Os republicanos e seus aliados de direita também estão se organizando para assumir o controle de conselhos escolares a cargos administrativos e regulatórios nos níveis municipal e distrital, a partir dos quais podem pressionar por medidas que afetam de tudo, desde o currículo das escolas públicas até os livros que são permitidos ou não nas bibliotecas. Uma censura que se expressa cada vez mais abertamente em várias partes do país.


    Por exemplo, esta semana, um conselho escolar no Tennessee votou por unanimidade – 10 votos contra 0 – para proibir o famoso romance gráfico “Maus”, de Art Spiegelman, vencedor do Prêmio Pulitzer, acusado de conter material “inapropriado” e uma figura nua. A peça é sobre o Holocausto.


    Também nesta semana, um prefeito da cidade de Ridgeland, no Mississippi, recusou-se a liberar 110 mil dólares de verba ao sistema de bibliotecas públicas do condado, exigindo a eliminação de todos os livros gays, para que a medida fosse revertida.


    Na Virgínia, o novo governador conservador acaba de instalar um sistema para que os cidadãos denunciem escolas e professores que lidam extensivamente com o racismo. Em um distrito do Kansas, 29 títulos foram retirados das bibliotecas, incluindo uma das obras da escritora Toni Morrison, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura.


    No Texas, uma nova lei busca limitar o ensino de história reduzindo ou eliminando as referências à discriminação contra os mexicanos e à escravidão, parte de uma ofensiva conservadora que conseguiu até mesmo coibir qualquer referência crítica à Batalha do Álamo. Um legislador republicano do Texas circulou uma lista de 850 livros para funcionários de escolas estaduais que incluíam obras antigas e novas, de autores conhecidos, como Margaret Atwood e Ilan Stavans.


    Também há reações, como na região de York, na Pensilvânia, onde uma série de protestos de professores e alunos teve sucesso ao derrubar a proibição de vários livros escritos da perspectiva de crianças latinas, afro-americanas e gays, incluindo dois livros infantis sobre Martin Luther King e Rosa Parks.


    Os líderes conservadores têm sido bem sucedidos em provocar um debate nacional ao atacar o que eles chamam de “teoria racial crítica” – uma frase acadêmica que trata do estudo do racismo sistêmico nos Estados Unidos – chamando-a de “antiamericana”.


    Na Flórida, um projeto de lei estadual tenta limitar o debate sobre o racismo, justificando-o por, segundo eles, “não fazer (um indivíduo) se sentir desconfortável, culpado, angustiado ou sentir qualquer outro tipo de incômodo por causa de sua raça”.


    A ALA (sigla em inglês da Associação de Bibliotecas dos Estados Unidos) informou que, em 2020, recebeu 156 solicitações, para remover 273 livros, mas que esse número se disparou no último trimestre de 2021, quando foram registrados 330 pedidos.


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