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15 Feb
Para enfrentar a miséria tributária brasileira

A discussão acerca da tributação no Brasil é marcada por uma polarização estrutural em torno do papel do Estado no desenvolvimento econômico e na mediação dos conflitos sociais. Nos campos hegemônicos da esquerda liberal, os herdeiros encontram na regulação institucional do capital

A discussão acerca da tributação no Brasil é marcada pela polarização em torno de qual deve ser o papel do Estado.

 Nos campos hegemônicos da esquerda liberal, os discípulos de Keynes encontram na regulação institucional do capital – sobretudo na tributação progressiva – o método mais eficiente de estabelecer o sonho social-democrata – mesmo que tenham se provado pouco capazes de estabelecer os meios políticos desta proposição em um país subdesenvolvido e dependente, e tenham se limitado a tímidas reformas.

 — sobretudo por meio da tributação progressiva — o principal instrumento para viabilizar um projeto social-democrata.

Trata-se da aposta em um Estado capaz de redistribuir renda, corrigir falhas de merc

ado e induzir o crescimento

.Entretanto, essa perspectiva tem se mostrado limitada no contexto de um país periférico, subdesenvolvido e dependente como o Brasil. 

Mesmo quando chegaram ao governo, esses setores foram pouco capazes de construir os meios políticos, sociais e institucionais necessários para sustentar reformas estruturais profundas. 

O resultado foi a adoção de políticas moderadas, fragmentadas e frequentemente reversíveis, que não alteraram os fundamentos da concentração de renda e poder.


Desenvolvimento dependente e limites do reformismo

A fragilidade desse projeto reformista já havia sido diagnosticada por pensadores do desenvolvimento latino-americano. Para esses autores, economias periféricas não reproduzem automaticamente os padrões dos países centrais, pois estão inseridas de forma subordinada na divisão internacional do trabalho.Nessas condições:
  • O Estado possui margem de manobra limitada;

  • As elites locais estão organicamente associadas ao capital internacional;

  • A estrutura produtiva é primária-exportadora ou financeirizada;

  • A base tributária recai majoritariamente sobre o consumo e o trabalho.

Assim, a simples adoção de mecanismos típicos da social-democracia europeia — como impostos progressivos e ampliação de gastos sociais — não é suficiente para romper com a lógica da dependência.


Tributação progressiva sem ruptura estrutural

No caso brasileiro, a defesa da tributação progressiva, embora necessária do ponto de vista distributivo, tem operado como uma proposta descolada das correlações reais de força. Sem enfrentar:
  • A financeirização,

  • A hegemonia do rentismo,

  • A captura do Estado,

  • A internacionalização do capital,

Essas reformas tornam-se frágeis e facilmente neutralizadas.Na prática, o que se consolidou foi um modelo híbrido:✔️ Discurso social-democrata
✔️ Política fiscal moderada
✔️ Compromisso com o mercado financeiro
✔️ Preservação dos privilégios das elites. Esse arranjo produz avanços pontuais, mas mantém intacta a estrutura regressiva do sistema tributário.


O Estado como gestor da dependência

Ao não questionar os fundamentos do poder econômico, a esquerda liberal acaba reduzindo o Estado ao papel de gestor da dependência. Em vez de atuar como instrumento de transformação estrutural, ele passa a administrar contradições:
  • Compensa parcialmente a pobreza,

  • Amortece conflitos sociais,

  • Sustenta a acumulação privada,

  • Garante a estabilidade do sistema.

A tributação, nesse contexto, deixa de ser ferramenta de reorganização social e passa a funcionar como mecanismo de legitimação do modelo.


O impasse político

A incapacidade de avançar além de reformas tímidas não é apenas técnica, mas essencialmente política. Ela decorre de:
  • Baixa mobilização popular permanente;

  • Dependência de coalizões conservadoras;

  • Subordinação ao capital financeiro;

  • Medo do confronto com as elites.

Sem base social organizada e sem ruptura com o poder econômico, qualquer tentativa de progressividade tributária tende a ser parcial, negociada e reversível.


Para além do keynesianismo periférico

O problema central não está na defesa da justiça fiscal em si, mas em sua dissociação de um projeto mais amplo de transformação. Em economias dependentes, a tributação progressiva só se torna efetiva quando articulada a:
  • Política industrial soberana;

  • Controle do capital financeiro;

  • Reforma patrimonial profunda;

  • Democratização do Estado;

  • Integração regional autônoma.

Sem isso, o keynesianismo periférico transforma-se em um reformismo administrado, incapaz de romper com a lógica da espoliação estrutural.


Conclusão

No Brasil, a hegemonia da esquerda liberal produziu um projeto tributário limitado, ancorado em referências europeias transplantadas para uma realidade periférica. 

A ausência de enfrentamento estrutural converteu a tributação progressiva em uma promessa recorrente, raramente concretizada.

Mais do que um problema técnico, trata-se de um impasse histórico:
Não há justiça fiscal duradoura sem disputa real pelo poder econômico.Se quiser, posso desenvolver esse trecho como parte de um capítulo teórico mais amplo, relacionando tributação, dependência e luta de classes no Brasil.

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