A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DA CHINA TEM OUTRO OBJETIVO
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DA CHINA TEM OUTRO OBJETIVO
20 Jan
IA: a China tem outro projeto
Enquanto o debate sobre inteligência artificial no Ocidente gira em torno de mercado, startups e valorização acionária, a China avança com um projeto de natureza distinta. Seu objetivo declarado é assumir, até 2030,
a liderança global em inteligência artificial, não apenas como setor econômico, mas como infraestrutura estratégica do Estado e da sociedade
.Esse projeto não está oculto. Ele aparece de forma explícita em documentos como o
“Next Generation Artificial Intelligence Development Plan”(2017), nos planos quinquenais recentes e em diretrizes do Partido Comunista Chinês.
A IA é tratada como tecnologia de uso geral, comparável à eletricidade ou à internet, capaz de reorganizar toda a economia e as relações sociais.
IA como política de Estado
Diferentemente do modelo norte-americano, baseado em grandes corporações privadas e monopólios de dados, a estratégia chinesa combina coordenação estatal, investimento público massivo e integração entre universidades, empresas e governo.
O Estado define prioridades, direciona recursos e estabelece padrões técnicos e éticos.
O objetivo central não é apenas eficiência econômica, mas soberania tecnológica. A China parte do diagnóstico de que depender de plataformas estrangeiras — especialmente dos EUA — significa vulnerabilidade política, militar e econômica. A IA, portanto, é vista como instrumento de autonomia nacional.
Códigos abertos e quebra de monopólios
Um dos pontos mais interessantes da estratégia chinesa é a aposta crescente em ecossistemas de código aberto, tanto em software quanto em modelos de IA. Isso não significa ausência de controle estatal — pelo contrário. O código aberto é utilizado como forma de evitar a captura da tecnologia por monopólios privados, estimular inovação distribuída e acelerar a difusão tecnológica entre setores e regiões.Ao contrário do Vale do Silício, onde poucas empresas concentram dados, infraestrutura e poder de decisão, a China busca fragmentar o controle corporativo, mantendo o comando estratégico no setor público. Grandes empresas existem, mas operam dentro de um planejamento nacional.
Transformação econômica e social
A IA chinesa não é pensada apenas para consumo, publicidade ou entretenimento. Ela é direcionada para indústria, logística, saúde, energia, agricultura, planejamento urbano e serviços públicos. O discurso oficial enfatiza aumento de produtividade, redução de desigualdades regionais e modernização do Estado.Isso inclui o uso de IA na administração pública, na gestão de cidades, no sistema de saúde e na educação. A tecnologia é apresentada como ferramenta de organização social, não apenas de lucro.
Um modelo alternativo ao neoliberal
No fundo, a estratégia chinesa de IA representa algo maior: um modelo alternativo ao capitalismo digital neoliberal.
Em vez de plataformas privadas governando a vida social por meio de algoritmos opacos, a China propõe — com todas as suas contradições — um sistema em que o Estado mantém o controle dos fluxos tecnológicos centrais.
Esse modelo levanta debates legítimos sobre vigilância, liberdades individuais e poder estatal. Mas também expõe uma fragilidade ocidental: a incapacidade de conter monopólios privados que hoje exercem mais poder que muitos governos.
2030 não é apenas uma data
Quando a China fala em liderança até 2030, não se refere apenas a patentes ou desempenho técnico. Trata-se de definir quem controla a inteligência artificial, para quê e em benefício de quem.
A disputa global pela IA, portanto, não é apenas tecnológica. É política, econômica e civilizatória.
E, ao contrário do discurso dominante no Ocidente, a China não esconde que está jogando esse jogo com um projeto claro, centralizado e de longo prazo.